O Pacífico é inconstante e versátil como a alma do homem. Às vezes está cinzento como a Mancha e exala um cheiro pesado; outras encapela-se e cobre-se tumultuosamente de cristas de espuma. Não é com frequência que se mostra azul e calmo. Mas, em tais ocasiões, o azul chega a ser arrogante. O Sol refulge ferozmente num céu azul sem nuvens. O vento dos trópicos penetra no sangue, enchendo-nos de um anseio impaciente pelo desconhecido. As vagas, rolando majestosamente, estendem-se até ao infinito, para todos os lados, e nós esquecemos a juventude desaparecida, com as suas memórias doces e cruéis, num irrequieto, torturado desejo de viver. Foi sobre um mar assim que velejou Ulisses, em busca das ilhas Afortunadas. Mas também há dias em que o Pacífico semelha um lago. Fica liso e brilhante. Os peixes-voadores, sombras fugidias sobre um espelho, levantam ao mergulhar pequenos repuxos de gotas cintilantes. Surgem no horizonte nuvens algodoadas, que, ao pôr-do-Sol, assumem formas estranhas, e é impossível não se ter a ilusão de ver uma cadeia de alterosas montanhas. São as montanhas do país dos sonhos. Singramos, no meio de um silêncio inconcebível, um oceano de magia. A espaços, as gaivotas vêm sugerir que a terra não está muito longe – alguma ilha esquecida no seio da savana de águas. Mas as melancólicas gaivotas são o único sinal que delas se tem. Nunca avistamos um paquete com a sua fumarada amiga, uma barca imponente ou uma elegante escuna – nem sequer um bote de pesca. É um deserto vazio. E esta vacuidade não tarda a encher-nos de um vago pressentimento.
O Pacífico (Histórias dos Mares do Sul)
William Somerset Maugham
William Somerset Maugham
e nós esquecemos a juventude desaparecida
com as suas memórias doces e cruéis
num irrequieto
torturado desejo de viver
I Somewhere Over the Rainbow I Norah Jones I
2 comentários:
Venia...
:)
...forte muito forte o pressentimento de que nada disto é pacífico!
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